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Capítulo 2: A aliança marginal


Lembrar da história da “menina garça” me ajudou a pensar numa solução para a nossa situação. No outro dia, enquanto Liocana e Moassito se escondiam como filhotes de toupeira recém-nascidos, fui à Baixa da Menina Garça saber melhor sobre aquela história que todos já conhecíamos na Baixa do Tigre, mas sem muitos detalhes.

Havia ali alguém que poderia facilitar meu acesso a toda aquela narrativa. Delde, filho de Ólab-Oan de Clarvitas, tinha o mesmo nome do filho do imperador regente Síssimo, mas era tão marginal quanto eu ou qualquer um naquelas vizinhanças. Ele trabalhava numa tenda, vendendo pães na frente da porta da taverna de seu pai. Já havíamos estudado arte juntos, certa vez, mas isto é coisa complicada para rejeitados como nós — ele precisou passar a trabalhar o dia inteiro quando seu irmão mais velho morreu, numa briga quase tão gratuita quanto a de Lucá Moassito e o jovem instigado de dentro da muralha.

Uma coisa quase todos de nossa idade tínhamos ali: senso de justiça, ainda que um pouco torto.

— Estou me lembrando de ti — disse Delde Clarvitas ao perceber-me por ali. — Por certo que sim! Lucá Eila, aluno da professora Flor de Cacto.
— Não mais — sorri-lhe. — Vovô fez o que pôde, mas sabe como são os vizinhos. Uns tílaros invejosos. Dizem e repetem que as artes são para os ricos. Não querem que tenhamos o que é bom.
— É assim que vamo, dia após dia, de vez em vez que um pobre sabota outro pobre, nos eternizamos nesta condição.
— A miséria alheia é confortante diante da minha!
— Bem… este sou eu — disse o jovem Delde. — E isto é o que faço para sobreviver.
— Dez correntos por um pão laranjo tão grande é até um preço razoável — mudei de assunto. — De que é feito? Cenoura, abóbora…
— A meu amigo de artes posso até vender por sete — sorriu Delde. — Mas não me parece ter vindo até aqui para pechinchar pão.
— De certo que não — respondi. — Vim atrás dela, a menina garça.
— Um pouco tarde — brincou o Delde Clarvitas. — Ela já voou para outra vida.
— E quem pode me contar mais sobre isto?
— É sério o seu interesse?
— Algum parente da menina garça ainda está vivo?

O jovem Delde ainda não entendia como eu poderia me interessar pelo assunto. Preferia acreditar que era alguma brincadeira de minha parte. Não se esperava que alguém em bom juizo se interessasse pela história de uma menina morta quase um século antes.

— Alguém que descenda da família da tal menina — prossegui
— E por que isto agora? — estranhou Delde Clarvitas. — Se quisesses saber a história da vida do outro Delde, o filho do imperador, até me pareceria plausível.
— Ele não morreu injustamente.
— Se quer alguém que sabe a história, tal pessoa pode ser o Somárvio, que trabalha para papai aí dentro da taverna.
— Posso entrar? — perguntei.
— Por bom senso, não — respondeu cordialmente.
— Obrigado — sorri.

Comumente nos ríamos de algumas regras vigentes dentro das muralhas, que costumávamos chamar genericamente de bom senso. Por mais que muitas nos parecessem boas, o abandono em que vivíamos, tornavam-nas inviáveis ou obsoletas. Podia um garoto de doze anos entrar em uma taverna? Ora, como se alguém realmente se incomodasse disso à Baixa da Menina Garça...

Ir ali pela manhã foi a melhor decisão que eu poderia tomar. Há menos bêbados na taverna nesse horário. Os que estão chegando são mal recebidos pelo dono, quando não expulsos a vassouradas, e os que dormiram de tão bêbados na noite anterior são expulsos a pontapés. Um espetáculo tão desprezível quanto hilário. Não estivesse empenhado em algo mais sério até faria um deles de idiota.

— Eu preciso dormir, imprestáveis! — gritava Ólab-Oan, dono da taverna.

Somárvio também parecia exausto, e nem queria falar comigo. Permaneceu assim até que eu lhe dissesse o que me movera até ali. Tudo mudou de figura muito rapidamente. O rapaz, quase monossílabo, de uns trinta e poucos anos, tinha muito interesse em fazer com que cada vez mais pessoas conhecessem melhor a história da “menina garça”.

— Era a irmã mais velha de minha falecida avó — contou Somárvio. — As duas eram órfãs, dormiam cada noite à casa de alguém que se condoía. De vez em quando, dormiam pela rua.
— Como se chamava?
— (Breves risos) Vovó se chamava Cadríssia, como a província. Ela recebeu esse nome do pai do esposo, no dia em que se casou. Ela e a irmã não tinham nome! Tu talvez não entendas um abandono tão extremo, pois, como vejo, deve ter um pai ou uma mãe que o vista bem. Dentro do que se considera bem à Baixa da Menina Garça, obviamente.
— Moro na Baixa do Tigre — respondi-lhe.
— Que imensa diferença — ironizou Somárvio.
— E vivo com meu avô — prosegui. — Meus pais morreram.
— Sinto muito — respondeu, sem muito se comover. — Se já o encontrou, pode levá-lo.
— Não vim por isso. Quero saber mais da história da menina garça.

Somárvio começou a dar a entender que queria que a história de sua tia-avó famosa fosse eternizada numa fantochada, livreto ou canção épica, como muitas vezes acontecia. Mas não parecia ser essa a motivação de um rapaz como eu, tão novo e sem poder para tanto.

— Fizeram um livreto, na verdade — contou Somárvio. — Circulou uns dez anos por aqui. Os que sabem ler ainda devem tê-los consigo.
— Tens um?
— Sei a história de cabeça.
— Por que não vendem mais?
— Devem ter se cansado de vender — riu-se Ou cansaram de comprar, não sei mais. Sei apenas que a história está se perdendo e precisa ser rememorada.
— Não foi para o que vim — respondi-lhe. — Sinto muito.
— Então, por que queres saber dela?
— Porque injustiça semelhante está por ocorrer à Baixa do Tigre.

Somárvio arregalou os olhos e prestou atenção em mim de forma irresistível, como ainda não havia feito até então. Talvez eu tivesse falado as palavras mágicas para conseguir o apoio de um adulto minimamente importante.

— Um rapaz de dentro das muralhas quis forçar a irmã de um amigo a satisfazê-lo. Ela reagiu, e o irmão ajudou. Deixaram o rapaz bastante machucado. Agora o seu irmão mais velho prometeu vingança.
— Por Geucana! — espantou-se Somárvio. — De onde são os rapazes?
— Pomar Imperial.

O rosto de reprovação do rapaz não foi algo que não se previsse. Mas nunca é muito agradável quando você crê que tem um problema grave e o confirmam disso.

— Se não vais me ajudar, que, pelo menos, não conte a história a mais ninguém.
— De forma alguma — respondeu Somárvio. — É que as histórias se assemelham, de fato, mas são diferentes. Minha tia-avó foi morta por um caixeiro pobre, que morreu pelas mãos do próprio povo quando descobriu, por si só, a barbaridade. Não havia poder envolvido.
— Mas como o caixeiro fez o que fez?
— Um dia, minha avó e sua irmã foram convidadas pelo tal caixeiro a dormirem num quarto de pensão que alugava no porão. A menina tinha catorze anos, e como vovó tinha sete, ele nada quis com ela. Quem contou tudo a adultos mais velhos, pouco tempo depois, foi minha avó, quando conseguiu fugir de lá. A menina garça, então, já estava morta, e o caixeiro ainda não havia tentado ocultar seu corpo sem vida. A comoção foi grande e o caixeiro sofreu castigos durante uma noite inteira. E, caso não saibas, ele morreu num matagal lá na Baixa do Tigre.
— Eu realmente não sabia.
— Mas não havia ali nenhum problema de apoio por alheamento.

O tal comportamento que chamávamos de “apoio por alheamento” era das coisas mais desprezíveis que eu conhecera em vida. Se um de nós tivesse uma questão contra alguém influente, era certo que algum de nossos vizinhos, tão pobre e escamoteado quanto nós, daria detalhes de nossa vida a algum poderoso ligado ao caso. Às vezes, agiam assim por quantias ridículas. Outras, pior ainda, por quantia alguma — apenas movidos por uma “lealdade” social que não fazia sentido algum.

— Mas se uma parte considerável da população se puser em favor da irmã de meu amigo, nem os apoiadores alheados poderão impedir nosso sucesso.
— Talvez — respondeu Somárvio, um tanto cético. — Embora, bem… são tantos os casos de abuso todos os dias nessas ruas onde o odor dos mictórios se confunde com o dos pães assando…
— Estás quase dizendo que a irmã de meu amigo deveria ter aceitado que um tapete em que o imperador limpa os pés, que, por acaso, estava disfarçado de gente, fizesse dela o que quisesse — revoltei-me.
— Não — respondeu Somárvio, sem dar tanta ênfase à sua negativa. — Recusar um mal é um ato de coragem, mas tem suas consequências. Minha tia-avó só foi justiçada porque morreu.
— Se é assim, volto a procurá-lo quando meu amigo e sua irmã morrerem.
— Não me mate de tédio — respondeu Somárvio, sem se prestar a me olhar. — Estou exausto. Vou dormir e, ao acordar, podemos articular algo.

Aceitei suas condições mas não me senti tão apoiado. Enquanto ele dormia, o tempo seguia passando imparável como um leopardo e arrogante como um publicano. Permanecer escondido a esperar que desistissem de uma vingança não estava entre as opções mais inteligentes.

Se esse estorvo precisa dormir, que durma. Preciso agir ainda antes que ele acorde” — pensei.

Enquanto eu me encaminhava a sair da taverna, fui surpreendido por uma fila de guardas imperiais, que passava à frente da fachada do local. Ao percebê-los, parei onde estava, ainda dentro da taverna, e tentei disfarçar. O fiz muito mal, mas como, felizmente, não tinham como plano entrar naquele antro, acabei passando despercebido.

Tão logo percebi que os guardas haviam passado, saí finalmente da taverna. Surpreso, perguntei ao jovem Delde Clarvitas se, por acaso, aquela movimentação era algo comum àquele bairro.

— Sempre que procuram por algum ladrão, vêm aqui — respondeu Delde. — Lembre-se, porém, que, para eles, ladrão é quem rouba dentro das muralhas. Se eu for roubado não será obra de um ladrão já que, por definição, não temos nada.
— Quanto tempo já ficaste sem ver uma fila de guardas imperiais passar por aqui? — perguntei.
— Alguns meses — respondeu Delde Clarvitas. — Mas prefiro quando vêm assim, com pressa. Não têm tempo para pegar meus pães sem pagar. Seria cômico se não fosse trágico vê-los procurando por ladrões enquanto afanam meus pães sem remorso.
— Foram em direção à Baixa do Tigre?
— Ora, ora — riu-se o vendedor de pães. — O que mais há nessa vizinhança são vielas que dão na Baixa do Tigre. Sua pergunta é difícil.

Ele tinha razão. Supor que aqueles guardas estavam à procura de meu amigo Moassito e sua irmã não poderia ser outra coisa senão especulação. Era prudente conviver com aquela possibilidade. Mas não se podia parar de viver. Respirei fundo e pus-me a caminhar rumo à minha casa, como se nada estivesse acontecendo.

E minhas esperanças foram traídas por meus olhos logo que retornei. Deparei-me com Ven-Racnas, um dos homens que menos merecia meu apreço. Não entendi porque ele estava ali. Mas não me apetecia vê-lo.

Ven-Racnas, de uns anos para cá, decidira ajudar seu irmão Ven-Oan a cuidar de seu modesto armazém. É claro que sempre desconfiei desse “cuidar”, mas aquilo não era problema meu.
Ven-Oan, a seu turno, sempre foi um senhor muito bondoso. Frequentemente nos dava biscoitinhos e caramelos, sem demonstrar menor incômodo. Ven-Racnas não. Ele não era dono do negócio, mas era um notório avarento. Já nos havia expulsado do armazém a vassouradas e pontapés por incontáveis vezes. Criança alguma gostava dele por ali, tampouco eu. Não me sentia bem perto dele, não me comprazia por ver seu rosto, mas — quem diria! — ele estava em minha casa e sorrindo.

— Rapaz, como cresceu! — disse Ven-Racnas, numa cordialidade forçada, já indo embora.
“Bem menos que sua pança”, pensei, sem que tivesse coragem de dizer.

O avarento saiu. Questionei vovô sobre o que aquele senhor fazia em casa. Ao mesmo tempo, via a jovem Liocana-Mardsésa com trouxas arrumadas e um semblante não muito feliz.

— Estou tentando resolver as coisas — respondeu vovô.
— Com o balofo? — contestei.
— Ven-Racnas-Senur vai resolver isto da melhor maneira — respondeu vovô. — Ele tem cultivos, em Terras Cinza-Claro Norte, e ofereceu asilo aos dois.
— Ele lá é dono de qualquer coisa? — protestei. — Ou é do irmão ou é roubado!
— Lucá! — disse vovô com ar de reprimenda.
— É sério, faz algum sentido que um homem que detém cultivos more na Baixa do Tigre?
— Faz — respondeu vovô. — São frutos de décadas de economias. Se eu tivesse tomado decisões mais inteligentes, também teria algo assim.
— Mas na Baixa do Tigre? — segui contestando. — Baixa do Tigre… terras… Baixa do Tigre… terras… lógica.
— Pelo menos fale baixo! — sussurrou vovô.

O irmão de Liocana-Mardsésa, em mesma situação, apareceu em meio à nossa discussão. Também se via medo e impotência em seus olhos.

— Aceitaste, Moassito? — perguntei, ao que Lucá Moassito ficou calado. — Ele os fará de escravos, no mínimo.
— Se fizer, eles fogem — respondeu vovô. — Já é o que farão. No meio do nada é até mais fácil.
— Contaste a história deles ao balofo?
— Lucá, não o ensinei a falar assim das pessoas — protestou vovô.
— Por que? — retruquei, petulantemente — Ninguém viu que o balofo é balofo? É algum segredo?

Liocana-Mardsésa e Lucá Moassito deram um pequeno riso, o que foi bom para interromper a apreensão e dureza do momento. Mas meu maior medo em relação ao envolvimento de Ven-Racnas na resolução daquela questão é que ele era um apoiador alheado em potencial. Quanto seria necessário para que ele entregasse as cabeças dos dois irmãos miseráveis para o irmão de Arcan? Talvez menos que os docinhos que Ven-Oan bondosamente nos dava.

— E sabem do Castelforte? — perguntei.
— Disse que estava se preparando para enfrentar o irmão de Arcan — respondeu Moassito.
— Eufemismo para “dormir” — respondeu vovô.
— Desde sempre vimos que era necessária a ajuda de um adulto — afirmei. — Pensei que podíamos contar com o senhor, vovô. Mas, se não podemos, já sei de outro adulto que pode ser muito importante para nós.
— Sua malquerença de mim vai passar Lucá — disse vovô. — Estão fazendo dessa história maior do que ela é! Eu e Ven-Racnas-Senur resolveremos isto com pouco ou nenhum barulho.
— Essa gente de dentro das muralhas é caprichosa — refutei. — Não têm mais nada o que fazer na vida. Se quiserem, fazem mal aos dois, onde quer que estejam.
— Nos cultivos eles podem fugir para o Reino de Oan, Brancas Terras ou A Autoridade. Ali, nenhum de nós tem poder.
— Eu não quero ir tão longe! — disse Liocana-Mardsésa, já esboçando umas lágrimas.

— Querer! — riu-se vovô. — Um dia talvez entenda que manter-se vivo nos custa algumas renúncias. 

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