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Prólogo 2: De como aprendi a fazer eneacênios

Sete anos e meio.

Vovô sempre deu advertências severas sobre a importância de nunca falar com estranhos. Mas, vez ou outra, ele mesmo trazia alguém estranho à nossa casa. Daquela vez, quem apareceu foi uma tal Flor de Cacto. Era uma mulher belíssima, mas se vestia de um jeito engraçado. Florido, colorido, alguns dias despretensioso, exagerado noutros. Seus cabelos também eram enfeitados, não apenas com uma flor ou com panos discretos como as mulheres da Baixa do Tigre ou com os panos de cetim e joias das mulheres de dentro das muralhas. Tinha, afinal, uma personalidade bem peculiar, mas algo me indicava que tinha origem abastada.

De forma resumida, era alguém por quem eu não teria o mínimo interesse natural. Pelo menos não até que vovô explicasse sua presença ali:

— Ela é professora e, a partir de agora, irá ensinar-te artes — avisou vovô.
— Artes? — estranhei.
— Sim.
— Artes de luta?

Flor de Cacto sorriu para minha pergunta, enquanto vovô parecia envergonhado. Ela se aproximou de mim e agachou, ficando da minha altura.

— Não aprecias as artes?
— As de luta, sim — respondi, inocentemente.
— Peço-lhe perdão por suas respostas — disse vovô.
— Não estou ofendida, Lucá-Senur — tranquilizou a jovem, logo olhando para mim. — Já viste um duelo em Luta Escudana?
— Numa arena de verdade, nunca. Vi uns bêbados brigando uma vez, na frente da taverna e o dono da taverna fazia as vezes de árbitro. Disseram pra gente que os dois estavam brigando do jeito escudano.
— Deve ter sido curioso — riu-se a professora. — Mas uma luta real não é assim. Tem muito sentimento, respeito, e só é bem-sucedido quem consegue equilibrar as razões e as emoções.
— A senhora já viu? — perguntei admirado.
— Várias vezes.
— E lutas com espadas, já viu? — perguntei ainda mais admirado.
— Uma coisa de cada vez — respondeu Flor de Cacto, em tom menos informal. — Já percebestes como todo movimento forma um desenho?
— Não.
— Então deixe-me explicar…
— Não estou dizendo que não percebi, estou dizendo que não forma — respondi petulantemente. — Desenho é feito com a mão. A senhora está falando coisas muito chatas.

Vovô, novamente envergonhado, interveio.

— Lucá, não se fala assim com uma professora!
— E como fala?
— Se diz o que não se sabe e ela explica.
— Hum…
— Eu quero que tu tenhas aulas de artes. Para ser sincero, acho que deverias ter começado até antes.
— Não quero ter aulas de artes.
— Se quiser que algum dia fale mais sobre sua mãe, terá de aprender artes. Ela entendia muito sobre artes. Não há como falar sobre ela se não aprenderes.
— N-n-não — gaguejou Flor de Cacto. — Acalme-se, Lucá-Senur.
A jovem professora fez uma expressão de advertência para vovô. Pareceu não gostar de sua estratégia. É como se soubesse que vovô muito omitia sobre meus pais, e também soubesse de minha dor em razão disso.
— Tu conhecestes a minha mãe? — perguntei a Flor de Cacto.
— Muito além de dizer que conheci, posso ensiná-lo a criar desenhos com a mesma técnica que sua mãe dominava.
— Então conhecias!
— Queres conhecer os segredos das artes antes de seus amiguinhos?
Flor de Cacto perguntou empolgada e parecia querer ouvir um “sim” igualmente empolgado. Respondi um “sim”, como ela esperava. Mas não me empolguei tanto. Com as artes eu pouco me importava. Queria saber mais sobre lutas. Ou sobre minha mãe.

* * *

— Eneacênios são módulos compostos por nove desenhos de cenas que envolvem os mesmos personagens ou movimentos. Se começa com um desenho no centro e os outros vão se desenvolvendo na espiral. Os eneacênios mais simples têm três personagens ou elementos, mas um artista inspirado é capaz de criar com quantos quiser. A primeira cena costuma ser a mais próxima do normal e crível e a disposição dos personagens vai se tornando mais absurda até que se chegue à última cena.

Éramos eu e uns três meninos, que nunca vira antes ou depois daqueles tempos — todos desinteressados. O único um pouco mais interessado era um quarto presente: o próprio filho de Flor de Cacto que atendia pelo nome de Paplin. Enquanto dava suas lições, Flor de Cacto precisava segurar as folhas de papel para que o vento não levasse — isto, pelo menos, era engraçado. Como as aulas ocorriam no quintal do velho e bondoso Ven-Oan-Senur, era comum que ele interrompesse a aula para nos oferecer algum caramelo. Flor de Cacto não parecia gostar muito, mas tinha certa paciência.

— Por que não trouxeste o eneacênio que eu fiz em casa, mamãe? — disse Paplin. — Adoraria que vissem!

Paplin, muito frequentemente, me deixava com raiva ou preguiça. Como ele poderia ser tão interessado por aquilo, se ninguém mais ali era? Flor de Cacto não demorou muitos dias para perceber que a presença de Paplin nos causava mal-estar, e logo o garoto parou de vir às aulas.
Logo, também, comecei a desenhar meu próprio eneacênio. No começo, fazia por me sentir obrigado, mas a ausência de Paplin dava certo alívio. Dava-me menos medo de errar. Como eu não me sentia muito inspirado, criei qualquer coisa na primeira cena de meu eneacênio.

— Um sapo sobre uma folha e um ponto? — disse a professora. — Interessante.
— Não é um ponto — contestei. — É uma mosca.
— Por Geucana, é um ponto! — exclamou a professora, com algum risinho. — A mosca não tem asas? E as patinhas?

Respirei fundo, entediado. Fiz as benditas asinhas. As perninhas…

— Está bom agora?
— Poderia ser melhor, mas é um bom ponto de partida — respondeu. — Faça o segundo quadro.
— Pensei numa maçã sendo cortada por uma faca com um pão ao lado.
— Não ouviste nada do que expliquei? — esbravejou a professora. — Todas as outras oito cenas devem ter os mesmos personagens. Deves apenas mudar a situação.
— Como?
— O sapo pode esticar a língua para apanhar a mosca, a mosca pode vir para cima do sapo, o sapo pode pular da folha… há tantas possibilidades!
Fiz como ela havia sugerido. Desenhei o sapo esticando a língua na segunda cena. Depois o desenhei pulando. Na terceira cena, a mosca posava na mesma folha em que o sapo estava. Na quarta, o sapo comia a folha em que estava — me parecia patético, mas queria logo terminar aquilo. Na quinta, depois de muito pensar, desenhei o sapo pulando para outra folha — se a professora implicasse, eu desenharia outra folha nas outras cenas também.

Não tive mais ideias.

— Professora Flor de Cacto, isso é muito difícil! — resmunguei.
— Já viste resgatarem um cavalo da fenda entre as pedras? Aquilo sim é difícil.
— Nenhuma outra cena é possível.
— Por Cadrissoninto! Por que não prestastes atenção às minhas explicações? Não é preciso ser possível. Ainda mais a partir do sexto quadro. Tendo os mesmos personagens, tudo é permitido. Por que a mosca não pode comer o sapo? Por que o sapo não pode criar asas? Por que o sapo não pode estar em cima da mosca com a folha voando? Por que a mosca não pode ter corpo de folha?
— Posso fazer tudo isso? — ali, finalmente, me empolguei.
— Garoto, tu e tua imaginação tudo podem! É claro… os traços ainda precisam melhorar muito, especialmente os do sapo, mas quero que me mostres do que podes ser capaz nestas três cenas finais.



É, agora eu estava gostando. Na sétima cena, desenhei o sapo voando com a mosca sobre a folha, sem asas. Na oitava, desenhei o sapo com barriga para cima, abrigando a mosca, enquanto a folha voava. Por fim, na nona, a folha esticava duas línguas e capturava o sapo e a mosca ao mesmo tempo.
— Muito bem! — empolgou-se Flor de Cacto. — Começaste a trilhar o caminho certo.
— Essa era a técnica em que minha mãe era uma exímia praticante? — perguntei.
— Sim, mas ela sabia de muito mais! Pintava a óleo, fazia mosaicos, gravuras, colagens… ainda hás de aprender muito para igualar-se a ela.

Desconversaram sobre minha mãe, mas uma vez. E eu lamentei. Mas havia começado a gostar dessa história de artes. Fiz vários eneacênios depois daquele dia. Aprimorei minhas capacidades de desenho e pintura.

Flor de Cacto também me ensinou a contar histórias — fazia aquilo melhor que vovô, realmente tinha o que ensinar. Ela contava histórias de cavaleiros destemidos, de sacerdotisas que enfrentavam salteadores sozinhas, de heróis que salvavam uma cidade inteira da erupção de um vulcão. As histórias com vulcões eram as que mais me fascinavam, pois eram as únicas que pareciam realmente ter acontecido.

Um dia, perto de meu aniversário de oito anos, Flor de Cacto levou a mim e a seu filho aos pés do Vulcão Estelice. A ideia, a princípio, me deixou um pouco amedrontado. Mas ela garantiu que o vulcão não passava por nenhuma erupção intensa havia séculos, e não dava sinais de que entraria em fortes atividades tão cedo.

— Veja como o fio de lava desce a encosta num ritmo lento, como fosse um caracol — comentou a professora.
— E a letalidade de uma serpente — disse Paplin.
— Sim, letal como uma serpente — concordou sua mãe. — Uma serpente de fogo. Mas essa serpente vai lenta, bem lenta… e antes que possa dar um bote, já se tornou…
— Uma rocha! — respondi com vivacidade.
— Exatamente — sorriu Flor de Cacto. — Veja como a lava incandescente é vívida, parece ter alma! E como qualquer alma, um dia ela se vai de seu hospedeiro, deixando um corpo vazio para trás.
— Como a alma de meu pai — lamentou Paplin.
— Como a alma de meus pais — complementei-lhe.
— Como a alma de todos nós — filosofou a professora. — No fim, a pedra que nasce do abandono da alma do magma também se torna poeira. A nossa tarefa é contemplar a vida. Diga, rapaz, o que tu crês que o magma pode ser enquanto vivo?

Deti-me aos fios de lava que desciam pelo vulcão. Enxerguei o caracol que Flor de Cacto citara, e também a serpente concebida por Paplin. Mas de meu coração surgiu outra imagem, muito mais intensa, que parecia realmente se exibir diante de meus olhos. Por um momento, cheguei a ter a impressão de que não estava apenas imaginando. Uma pequena lágrima caiu de meu rosto, e eu pensei em meus pais.

— Que vês, Lucá? — perguntou Flor de Cacto.
— Vejo o fio como um peixe fora do rio. Ele se debate, vivo, por algum tempo. Mas acaba inerte e sem alma, como a rocha.
— Se vês peixes no magma, desenha-os — sugeriu a professora.

Foi o que fiz. Minhas mãos de menino curioso e meu coração entristecido criaram aquele desenho no ritmo da minha respiração. A tristeza que eu sentia naquele momento era diferente. É como se estivesse sobre mim como um casaco, que eu poderia me desfazer a qualquer momento.
Já era à noitinha quando cheguei em casa, acompanhado por Flor de Cacto. Vovô ficou realmente assustado ao ver que eu havia estado aos pés do vulcão, mas a professora assegurou que tudo fora feito com responsabilidade.

— Ele viu sozinho o peixe a pular da lava — comentou a professora, entusiasmada.
— Pois bem — vovô respondeu, sem dar muita trela.

Não importavam os resultados, vovô não havia gostado de saber que eu estivera tão perto do vulcão. Intimamente eu tinha a impressão de que o que estava em questão não era o perigo que eu havia, supostamente, corrido. Mas eu não sabia exatamente o que movia vovô.
Poucos dias depois, porém, quando Flor de Cacto foi novamente em casa, vovô tomou uma decisão extrema:

— Precisaremos encerrar as aulas de arte — disse vovô, sem muita simpatia.
— Agora que ele tanto se desenvolveu? — espantou-se a professora.
— Sim, agora.
— Mas…
— Dê meus cumprimentos ao seu pequeno Paplin.
— Lucá-Senur, eu conversei com um joalheiro com quem já trabalhei. Ele trabalha com brilhantes de origem vulcânica e aceitou nos receber para…
— Não poderei mais pagá-la — respondeu vovô, ainda mais ríspido.
Tive a impressão de que o problema não era exatamente aquele. Parecia que o principal havia sido dito entre vovô e Flor de Cacto apenas com um olhar. Ela não insistiu.
— Se queres assim, assim será. Mas é importante que ele aprenda, mais cedo ou mais tarde.
— Não se trata de um adeus — aliviou vovô. — Sou grato pelo aprimoramento já alcançado. Por enquanto, é melhor que as coisas sigam assim.

Não vi mais a professora Flor de Cacto durante a infância. Nem seu filho. Mas guardei com carinho a lembrança daqueles dias e o peixe que desenhara naquele vulcão.



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