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Prólogo 1.2: De como ouvi sobre o tigre pela primeira vez

Cada fato foi se convertendo numa névoa de imagens borradas conforme fui crescendo. Talvez aquela história de “desde que me entendo por gente” se aplique à minha vida bem aí, neste momento em que chego com vovô à capital do império. Era preciso me entender por gente, pois, de outra forma, não entenderia o quão importante era não me perder de vovô, que já não tinha disposição para sair à minha procura no meio da multidão.

Vivrana não era exatamente aquilo que eu ouvira sobre ela durante a viagem. O que era normal, já que não era aprazível a nenhum viajante se imaginar vivendo nas partes menos nobres e coloridas da capital do império.

Havia pouco tempo desde o meu aniversário de seis anos. Talvez até o tivéssemos comemorado à estrada, mas não me recordo disto. A idade de vovô, então, nem parecia prudente perguntar

Sobre vovô eu pouco sabia. Talvez soubesse sobre o vinho preferido durante a ceia, ou a canção que mais gostava de cantarolar — tinha uma melodia marcante, embora ausente de letra — mas eu nada sabia sobre o seu passado.

Sua filha, minha mãe, havia morrido quando eu era menor — informação que eu conhecia pelo eufemismo “converteu-se em luz”. Se eu perguntasse sobre os vaga-lumes, imaginando que eles fossem centelhas de minha mãe, vovô apenas respondia que não. A luz de mamãe tornara-se forte demais para que pudéssemos vê-la, ela complementava.

Da luz de papai, também falecido, ainda menos se falava. Vovô não aparentava odiá-lo, mas falar sobre ele parecia ser um incômodo ainda maior.

Os primeiros dias à Baixa do Tigre, só não foram de tudo difíceis graças à ajuda de alguns de nossos novos vizinhos. Gente que se compadecia de minha orfandade, e admirava vovô. Mas não houve amigo maior que Ven-Oan, dono duma venda perto do casebre antigo em que dividíamos espaço com ratos e traças, e onde o aroma das roseiras de um vizinho se confundia com o de mofo.

O senhor de idade avançada, entre outros atos caridosos, não quis garantia alguma ao vender fiado a vovô, e o fez com certo espírito de boas vindas. Nem eu mesmo seria capaz de tamanha cordialidade. E, talvez, justamente por se tratar de alguém recém-chegado à vizinhança, eu não seria tão gentil se estivesse no lugar de Ven-Oan-Senur. Mas o velho foi além, e chegou a nos querer agregados à sua família.

— Passaremos o Zímindon na casa de meu filho mais velho, no pântano — convidou Ven-Oan, quando ainda fazia menos de um mês que morávamos por ali. — Ele vem da Conquéria para me visitar, mas detesta este bairro!

— Militar1? — perguntou vovô, estranhamente apreensivo.
— Não. Trabalhou com esta gente por quarenta anos, mas não o faz mais — sorriu Ven-Oan. — Acreditem, esta é a descrição de meu filho, por mais que eu tanto me assemelhe a um adolescente — encerrou, com risos.

Ven-Oan era um homem muito bondoso, mas assumia já ter sido um crápula quando jovem. Ímarto, seu dito filho, fora fruto de uma canalhice com a filha de uma sacerdotisa, lá pelos seus dezesseis anos. O menino cresceu com profundo ódio do pai e dedicou a vida à armada terrena e à armada fluvial, em Conquéria. Ali, não galgou muitas posições na hierarquia, certamente por sua origem humilde — sua mãe, que aspirava seguir os passos dos antepassados e servir ao sacerdócio, foi impedida de prosseguir quando emprenhou-se de seu pai fujão, e perdeu todo o prestígio que poderia herdar.

Apesar dos reveses, Ímarto-Senur chegou além de onde se esperava para alguém como ele.

Depois de cuidar bem de seus filhos e os ver adultos, o filho rejeitado decidiu por perdoar o pai. A morte da própria mãe alguns anos antes, por certo, facilitara a reaproximação entre Ímarto e Ven-Oan, ainda que com certas reservas.

— E o menino poderá caçar rãs! — sugeriu Ven-Oan-Senur.
— Detesto caçar — intervim, provocando risos, ainda que minha expressão fosse séria. — E detesto rãs.
— Não havia rãs no frio da cordilheira — explicou vovô.
— Havia nas espeluncas em que dormíamos e nas margens dos rios que enfrentamos — acrescentei.
— De toda forma, venham! — disse Ven-Racnas. — Haverá muito que comer, e meus sobrinhos-netos são exímios músicos. E talvez já seja hora de pensar sobre o futuro de vosso neto. Ímarto tem histórias excelentes sobre o exército.

Vovô aceitou o convite com ressalvas. Não queria que se falasse tanto sobre exércitos para mim. Ven-Oan-Senur, se não for ingênuo, deve ter entendido naquele instante que vovô mais queria me proteger do que me estimular ao combate. Isto não era algo comum naquela vizinhança, tampouco era producente para um menino pobre.

Crianças, naquelas ruas lamacentas, sombrias mesmo ao meio-dia sem nuvens, precisavam ser muito sagazes, pois era necessário defender-se o tempo todo. E eu me tornaria consciente disto poucos anos depois, para o meu próprio bem.

Receoso por recusar a hospitalidade de alguém logo de início, vovô decidiu aceitar o convite. Parecia enfrentar a oposição de si mesmo, mas, ainda assim, fomos à pequena celebração. O pântano, logo nos demos conta, era uma grande planície onde várias pessoas mantinham casas, ali mesmo, ao lado da Baixa do Tigre. A carruagem não demorou mais que uma hora para que chegássemos àquele lugar — batizado com o nome do herói Filatim.

Foi naquela ocasião que conhecemos o irmão de Ven-Oan, o rabugento Ven-Racnas. E também o imponente Ímarto, seu filho com a tal filha da sacerdotisa. Também fomos apresentados a Pétrifa, esposa de Ímarto, e a pequena Aura-Deldínia, filha apenas de Ímarto, que viria a morrer meses depois duma enfermidade devastadora. Havia ali, também, mais uns seis ou sete parentes — apenas por parte de Ímarto-Senur — e agregados.

E foi logo à primeira noite que o militar emérito contou aos seus sobrinhos a heroica narrativa sobre o tecelão portador de espada que enfrentou um tigre incendiário, e deu origem ao nome da Baixa do Tigre. Vovô, que dormia cedo, não vira nada: nem meus olhos brilhando, nem a narração exagerada de Ímarto, muito menos a intervenção zelosa de Pétrifa.





No outro dia, para evitar retaliações, fingi que acompanharia meu avô em dormir cedo. Mas, à hora das narrações sinistras à fogueira, dirigi-me discretamente até lá, ficando escondido atrás duma cerca.
E assim, eu soube de mais e mais das coisas dos adultos: a briga por poder em Escudas, a origem do nome de outros bairros vizinhos, tais como a Baixa da Menina Garça e o Pão Velho, especulações sobre a ascensão de Síssimo ao trono como imperador regente, a rivalidade com os vívanos rebeldes do exclave durante os Jogos Conquérios, e daí por diante. Coisas, às vezes, muito dinâmicas e complicadas para uma criança entender, e eu realmente não entendi tudo o que via ser contado e conversado. Mas entendi, desde aquele momento, que vivia num mundo e numa situação muito mais complicados do que supunha até então.

Ao final do outro dia, durante a ceia, o fanfarrão Ímarto-Senur falou, com certa presunção, sobre o orgulho de ter pessoas muito influentes em sua lista de conhecidos. Citou, aí, o nome de Ólab-Senur, o Ministro da Tradição, um dos homens mais íntimos do imperador regente. Não dizia ser seu amigo, mas afirmava que o ministro estava interessado num silo que comprara a algumas léguas dali, e do qual queria se desfazer. Alguns dos sobrinhos riram, numa zombaria contida, mas o velho beligerante os respondeu com firmeza:

— Sei bem de minha posição em nossa sociedade! Um bastardo que conseguiu sobreviver…
— Meu filho, eu… — interrompeu Ven-Oan, com aquela voz de culpa.
— Nada que reclamar de ti, papai — interrompeu Ímarto. — Não é uma acusação, tampouco um pedido de retratação. É um fato. Ólab-Senur jamais seria meu amigo, ou convidar-me-ia a cear à sua mesa, enquanto um bastardo exitoso. Mas, pouco que isto é, nos conhecemos. E ele é um homem de muitas posses. Sou de algumas, nem tantas e nem tão poucas. Comprei um silo velho já há alguns meses, por ter muitos planos com plantações, mas agora estou tão velho quanto o silo. E aquele ministro pode convertê-lo em dinheiro para mim. Não gostam de dinheiro? — riu-se, sem escândalo.
Os sobrinhos passaram a rir mais baixo. Vovô, por sua vez, pareceu um pouco estático, angustiado. Tive a impressão de ser o único a perceber o quanto vovô ficara preocupado subitamente.

Poucas horas depois do jantar, vovô agradeceu a hospitalidade do bonachão comerciante, mas preferiu que retornássemos à nossa casa. Imediatamente.
— Quase à madrugada? — surpreendeu-se Ven-Oan-Senur.
— Eu havia me esquecido que o senhorio passa logo pela manhã para apanhar o aluguel! — afirmou vovô. — Se ele não me encontra por lá, é capaz pôr a casa a aluguel novamente.
— Então o casebre é alugado— admirou-se o velho Ven-Oan. — Não deve custar muito um aluguel à Baixa do Tigre.

Vovô ficou irredutível. Afirmou que retornaríamos ainda que caminhássemos a pé, pelo pântano. Depois de muita insistência, Ímarto cedeu dois cavalos, para que dois de seus sobrinhos levassem-nos de volta para casa.

Eu não me esqueceria daquela situação estranha tão cedo. Não pela caduquice de vovô, como aparentemente pensaram. Mas, justamente, por razões bem mais racionais. Foi a primeira vez em que tive a impressão de que vovô escondia algo.


1 Conquéria é a cidade onde se concentram os militares vívanos.

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