Ads Top

Capítulo 1: Amigos por um nome

Doze anos.

— Atenção! — gritei desesperado, segurando o braço esquerdo de Lucá Moassito.
— Que ideia é essa? — gritou o rapaz, reagindo à minha intervenção.
— Acalme-se — sussurrei.

Não houve colisão de nossa carroça com a que vinha na outra rua daquele cruzamento. Mas foi por pouco. Teria sido um grande desastre, e tudo o que não precisávamos naquele momento era de mais confusão. A outra charrete vinha cheia de melancias e botelhas de azeite, e a nossa vinha comigo, com Lucá Moassito conduzindo e com sua irmã Liocana-Mardsésa escondida na carroceria, debaixo de um pano sujo e algumas bugigangas. Lucá Moassito não conseguia mais disfarçar sua intranquilidade diante de toda a responsabilidade que via se erguer diante de si.

Eu ainda conseguia disfarçar bem algo de meu nervosismo. Não estava tremendo, como o Moassito. E sabia que se me deixasse levar pela tensão da situação, poderia pôr tudo a perder.

— Vamos esperar a rua ficar vazia? — Perguntou Moassito quando, já depois do quase acidente, chegamos à porta de casa.
— Claro que não! — respondi com firmeza. — Quantas horas crês que precisaremos esperar até que se esvazie?

O responsável pela condução daquela situação, a partir dali, não seria outra pessoa senão eu. Desci da carroça e abri o cadeado que fechava uma grossa corrente que, por sua vez, impedia a abertura do portão lateral da casa. A carroça entrou e eu fechei o portão novamente, enquanto vovô, que era carpinteiro e consertava algumas cadeiras, prosseguia normalmente em suas funções. Não desconfiava de que algo fora da ordem esperada de coisas tivesse acontecido. Porém, por ser o adulto mais próximo de nós, era imprescindível que ele fosse incluído em nossa questão. Pelo bem de Liocana-Mardsésa.

— O que está havendo? — perguntou vovô. — Por que ela está por baixo deste lençol sujo?
Fiz sinal para que vovô falasse mais baixo, enquanto Liocana-Mardsésa se desemaranhava do pedaço de pano.
— Não nos negue ajuda, Lucá-Senur! — sussurrou Lucá Moassito, quase desabando em choro.
— Estão demorando demais para explicar.
— Precisamos que esconda Liocana-Mardsésa em casa, vovô!

A jovem, linda e frágil, desabou a chorar. E não parou. O irmão, que lacrimejava, quase não conseguia mais engolir o choro. Ambos pareciam cada vez mais desesperados.

— Alguém aqui teria a capacidade de completar um raciocínio até o fim, sem chorar? — protestou vovô, entre a ira e o tédio.
— Eu, vovô! — respondi. — Mas acalme-se.
— Acalmar? — riu-se vovô Lucá. — Então, vejamos. Uns dez dias atrás, o pequeno dono de si me enfrentou, e disse que queria não precisar dormir todas as noites em casa, para que pudesse dormir no casebre do pântano, junto dos amigos. E quando eu acenei com um “não”, ficou indignado!
— Resolvemos nossas questões depois, vovô — intervim à sua fala.
— Se quer que eu participe disto, teremos de resolver agora — protestou. — Pois foi tanto que me fizeste crer que eu era um vilão, que acabei permitindo que dormisse com os amigos no bendito mocambo. E, afinal, queriam caçar rãs ou caranguejos?
— Vovô, precisamos seriamente…
— E, observe bem a situação — interrompeu vovô. — Agora me reapareces assim. Desististe de ser adulto, imagino.
— Um rapaz chamado Arcan tentou violar a irmã do Moassito — comecei a explicar. — Mas Moassito o interceptou antes que ele concluísse sua ofensiva. Liocana mordeu o rapaz até que sangrasse, mas foi para se defender! E Moassito completou o serviço.
— Eu não queria que as coisas terminassem assim, Lucá-Senur! — complementou Liocana-Mardsésa, ainda aos prantos.
— Vós matastes a um rapaz!? — sussurrou Lucá-Senur, num estado entre a revolta e o pavor.
— Não! — respondi rispidamente. — Ele ficou muito machucado, mas não é mais problema.
— O problema é que Arcan chamou seu irmão mais velho para perseguir a mim e à minha irmã! — esclareceu Lucá Moassito.
— E de onde é este rapaz, afinal?
— Do Pomar Imperial.

Vovô olhou para o lado, num ato típico de reprovação. Percebeu que mais problemas viriam. A vizinhança do Pomar Imperial era localizada na parte nobre de Vivrana — ficava ao lado de um pomar homônimo, próxima ao Palácio Imperial e às ruínas do antigo castelo do imperador. Era a morada de pessoas muito ricas: os estancieiros, os grandes comerciantes, os ourives e donos de minas. Já nós? Pobres de nós! Morávamos na famigerada Baixa do Tigre, cuja pobreza só não era menor que a de alguns agrupamentos mais recentes no extremo oposto da cidade.

Qualquer que fosse o conflito entre garotos como nós e filhos inconsequentes dos homens abastados, era muito provável que nós sairíamos em franca desvantagem.

— E de onde surgiu esse rapaz? — perguntou vovô. — O que um jovem do Pomar Imperial fazia numa choupana do pântano?
— É mais comum vê-los nos brejais do que se possa imaginar — respondeu Liocana-Mardsésa. — Vão porque ali estão ausentes as patrulhas que podem reprovar suas ações. Há muitos limites entre os nobres, e nenhum nos lamaçais.

— Há limites sim! — contestei. — Ninguém tem a prerrogativa de tomar-lhe à força.
— Levem-na logo ao quarto de Lucá! — disse o vovô, para todos, logo se virando apenas para Liocana-Mardsésa. — E também seria bom que se banhasse!

Os irmãos sorriram aliviados. Liocana-Mardsésa foi abraçada por Lucá Moassito e os dois entraram em casa. A jovem era o único resquício de família que sobrara a Lucá Moassito e, portanto, era o que havia de mais importante para ele.

Eu também me chamo Lucá e, em verdade, é isso o que mais nos uniu desde que nos conhecemos. Nossa afeição vem desde bem pequenos, quando eu ainda era recém-chegado à vizinhança. À ocasião daquele conflito, eu havia acabado de completar meus doze anos de idade.

Éramos quatro amigos: Oanim, o mais velho, que tinha treze anos e estava em peregrinação com os pais, em Escudas e, provavelmente, era quem tinha uma melhor situação de vida entre todos nós; Lucá de Castelforte, o mais corajoso de todos, com onze anos de idade; Lucá Moassito, também com onze, o mais tímido entre nós, e, por fim, eu: Lucá Eila.

Vovô também atendia por Lucá-Senur, mas sempre que pediam o seu nome em algo mais sério, ele se apresentava como Actinas Eila. Eu não entendia direito, mas tinha a impressão que de tanto ser chamado de “avô do Lucá” ele havia decidido adotar o nome de maneira informal. De fato, o passado de vovô estava entre as maiores incógnitas de minha vida. Tudo o que o envolvia era mais alvo de minhas especulações que da minha ciência.

O fato de termos o mesmo nome era muito comum a garotos da nossa idade. Mas havia uma razão para isto: era o mesmo nome do filho do antigo imperador. Ainda assim, era um nome novo em Vivrana.

O primeiro homem ali conhecido a se chamar “Lucá” foi um nobre que viera do sul, e que se tornou, posteriormente, ministro do império e sogro do imperador. Capras de Infratelvoor, que ocupava o trono de então, deu o nome de Lucá para seu filho, homenageando o pai de sua esposa, o que era bem pouco usual. Por julgarem auspicioso, as mulheres do império passaram a replicar o mesmo nome em seus meninos, a ponto do nome, antes desconhecido, se tornar incomodamente comum.

Tais movimentos onomásticos eram bastante recorrentes na sociedade vívana. Nosso amigo Oanim, por exemplo, fora dos últimos a serem batizados numa onda de nomes que faziam referência ao vizinho Reino de Oan — também razão para outros nomes como Oanor, Oanerius, Ven-Oan e, obviamente, Oan. Era um ensejo que vinha da amizade entre os países.

Também havia uma forte tendência dos pais replicarem em seus filhos o nome de Cadríssio, o que fazia homenagem tanto ao guerreiro homônimo, tido como unificador do Império Vívano, como ao seu filho Cadríssio II, reconhecido como o primeiro imperador vívano da conhecida dinastia de Infratelvoor. Este nome, por sua vez, também admitia o feminino “Cadríssia”, um tanto evitado por também ser o nome duma província.

Geucana, deusa com quem Cadríssio I teria se casado para que nascesse Cadríssio II, costumava inspirar muitos nomes compostos. Poucos pais tinham a coragem de nomear uma filha apenas como Geucana para não parecerem prepotentes.

De qualquer forma, desde os últimos doze anos, nenhum nome era mais popular que “Lucá”.

— Me desculpe por tudo, vovô — falei.
— Não se preocupe muito — respondeu. — Eu sempre soube que isto daria errado. Só não imaginava que seria tanto e tão rápido.
— Não vou mais dormir fora de casa — choraminguei. — Juro pela honra de meu nome!
— Aprenda, Lucá: não é pela origem imperial que seu nome se torna honrado. É pela honra erigida por quem o porta. É pela responsabilidade que se exerce. Nunca se encontraria honra e respeito num trapaceiro, ainda que se chamasse Lucá.

Eu não estava em condições de concordar ou discordar, pensar ou deixar de pensar. Simplesmente aceitei o que vovô nos dissera. De fato, a segurança doméstica a que tanto havia desprezado, se tornara algo de grande valor.


* * *

Algumas horas depois, no telhado de um armazém abandonado, me encontrei com Lucá de Castelforte, o amigo mais audacioso de nossa turma. Era comum que fôssemos ali, especialmente quando algo impedia nosso encontro no pântano. Enquanto eu odiava brigas e Lucá Moassito era um rapaz reativo — do tipo que apenas se defende quando atacado — Lucá de Castelforte preferia sustentar a imagem de mais valentão de nosso grupo.

— Eles estão nos procurando, e não deveríamos deixar que encontrassem. Deveríamos atacá-los primeiro!
— Eles não sabem onde moramos — respondi. — Sabem que é à Baixa do Tigre, mas o que mais há nessa vizinhança imensa são rapazes chamados Lucá!
— Estes jovens abastados precisam se pôr em seus devidos lugares! — irou-se Lucá de Castelforte. — Passam os anos a nos desprezar porque moramos na parte de fora das muralhas. Se adentramos a cidade, a passeio, zombam de nossas vestes humildes. Pois a morte dever-lhes-ia ser o mínimo quando ousassem ultrajar a honra de nossas donzelas!
— Nem por brincadeira, Castelforte — respondi-lhe. — Vovô quase desmaiou quando entendeu que havíamos matado um rapaz do Pomar Imperial! Só se aliviou ao saber que não chegou a tanto.
— Tanto nada! — retrucou. — Se Moassito tivesse matado o infeliz eu o apoiaria agora, em corpo, fala e espírito. Se fosse minha irmã eu teria feito exatamente isto. E deixaria que os caranguejos do pântano cuidassem do resto.
— Seja lá o que queiras fazer — implorei — Não faça sem que saibamos!
— Certo — levantou-se, já saindo. — Avise Moassito que caso eu encontre Arcan na rua, farei escoar dele o sangue que restou.
— Se queres encontrar Arcan pelas ruas terá de esperar algumas semanas — entressorri. — Quem, dizem, pôs-se à vingança, foi seu irmão mais velho.
— Como se chama? — perguntou Castelforte.
— Não ouvi dizerem seu nome — respondi. — Mas disseram que tem dezessete anos!

Lucá de Castelforte, dessa vez, não ficou tão exaltado. Moassito e sua irmã haviam enfrentado um rapaz de catorze anos, tendo respectivamente onze e treze de idade. Um rapaz de dezessete anos, certamente maior e mais forte, caracterizava uma situação tão diferente quanto desanimadora.

— Não será o primeiro caso de um mais forte morrendo nas mãos de um mais fraco — respondeu Lucá de Castelforte.

Nem sempre houvera tanta hostilidade no modo de ser de Castelforte. Mas os ideais da Revolução Andastânia — que levara a uma queda da monarquia num reino vizinho1 — encontraram ali um jovem e dedicado defensor.

— Por Geucana! — pedi, amedrontado. — Jamais repita algo assim perto de outras pessoas!
— Pedras e forcas não me dão mais medo que a submissão — encerrou Castelforte, logo se retirando dali.

Eu ainda quis ficar naquele telhado mais alguns minutos. Dele era possível ver, iluminada com dificuldade por tochas e lâmpadas a óleo, toda a miséria da Baixa do Tigre e outros bairros assustadoramente pobres como o Pão Velho e a Baixa da Menina Garça. Este último bairro já teve outro nome, até que, uns oitenta anos antes, uma menina apelidada de “Garcinha” se recusou a fazer as vontades de um caixeiro viajante. Acabou sendo morta por ele, após uma sequência de dias de terror. Ele foi morto pelas pessoas do lugar, e a menina, vista como uma mártir pueril, passou a ser razão do nome da vizinhança.

Não dá para esconder o medo pelo fato da história se assemelhar, em alguns pontos, à de Liocana-Mardsésa. Também não era a primeira vez que se via uma injustiça se repetir por aquelas bandas, ainda que com sensíveis diferenças de narrativa. E eu, sinceramente, ainda preferiria que nossa vizinhança continuasse com o nome de então.

Um pouco mais a diante, se podia ver uma das grandes muralhas que cercavam a parte mais antiga de Vivrana, a capital do império. Dentro dos limites das muralhas, morava o imperador regente Síssimo de Amevez, seu filho Delde, seus amigos e pessoas de confiança, os muito ricos, os ricos, os não tão ricos, os de vida simples e também os pobres. E também os muito pobres, é bom que se diga. Mas o que se via do lado de fora das muralhas desafiava as definições de pobreza até mesmo dos mais pobres da parte interna das muralhas de Vivrana.

Não faltava, na verdade, quem acreditasse que nós mesmos éramos parte da muralha. Se algum exército inimigo pretendesse invadir Vivrana — uma ideia não muito inteligente, mas que aqui serve como hipótese drástica — certamente seríamos os primeiros a serem dizimados. Éramos os tijolos e blocos de carne que sucumbiriam antes, para salvar os tijolos e blocos de pedra, que eram mais valiosos. A imagem vistosa da muralha imponente à minha frente parecia vir com o aviso de que a vida de nenhum de nós do lado de fora dela tinha qualquer importância.

1 A Revolução fez, de facto, com que se criassem dois poderes paralelos no Reino da Andastânia: um dos descendentes dos revolucionários e outro da família real, que conseguiu reestabelecer alguma coisa após alguns anos. Monarcas e revolucionários não se reconheciam, e desejavam a queda um do outro. Em busca de reconhecimento, defensores dos revolucionários se espalhavam por reinos vizinhos, passando seus ideais a diante, especialmente entre os menos afortunados.

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.