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Prólogo 1.1: De como ouvi sobre o tigre pela primeira vez


Seis anos.

— A muralha de fogo, que não só era alta como também densa, até exibia algum bailado fascinante, ao som fraco do vento. Mas figurava, afinal, como uma coluna perversa de larvas famintas que luziam afoitas, enquanto devoravam as tendas simples que se esparramavam por todo aquele chão imundo, deitadas sob os lençóis carcomidos de seus próprios tetos. Não as tendas dos mercadores e suas caravanas, que, já àqueles tempos, geravam grandes riquezas por onde passavam. Mas aquelas sujas e surradas, da gente miserável e esquecida. Muitas eram feitas de retalhos. Os piores retalhos, diga-se. E eram todas consumidas sem o mínimo pudor. Ímarto sentia certo prazer em narrar aquilo. Imprimia à história um tom tão heroico quanto forçado. Alguns dos que assistiam já conheciam a história — estes, certamente, viam pelo gozo de vê-lo tão dramático.

O muro fumacento assustava toda Vivrana — prosseguiu. — E o odor inconfundível da queima de madeira e tecido se misturava com o dos cacarecos e da carne esturricada. Carne sofrida e desesperada. Carne de gente!

— Que horror, Ímarto-Senur1! — protestou Pétrifa, esposa do velho sargento. — Atente-se ao tamanho das crianças!




Estávamos, à beira da fogueira, eu e a pequena Aura-Deldínia, que, assim como eu, tinha seis anos de idade, mas estava caindo em sono e não prestava mais atenção na narrativa de seu pai. Alguns parentes e amigos de Ímarto também acompanhavam sua fala apaixonada. Eram poucos, mas todos eram adultos. Formávamos uma roda em volta da fogueira, a algumas dezenas de passos de uma casa no meio do pântano. Ainda que amplamente conhecida pelos que viviam naquela região, nem todos os presentes sabiam daquela história — eu, muito menos.

— O mundo é hostil, tia! — disse um rapaz, da família deles.
— O destino não poupa criança alguma disto, principalmente as mais pobres. E o terror que assombra o mundo se apresenta a elas cedo ou tarde — complementou outro. — Melhor que seja cedo, para que percam o medo do sangue!

A esposa de Ímarto-Senur apanhou um gravetinho e mexeu na brasa, onde pusera uns biscoitinhos para assar. Calou-se, vencida. Mas permaneceu emburrada.
— Estás com medo, Lucá? — perguntou-me Ímarto.
— Não! — respondi prontamente.

Até estava, mas era curioso. Queria saber mais sobre tudo o que me cercava, e era preciso aproveitar a oportunidade, já que vovô não estava ali. Se estivesse — óbvio ululante — agiria de forma semelhante à de Pétrifa-Ginur.

Meus olhos brilhavam pela história contada por Ímarto-Senur. Ele logo tratou de ficar mais contido, para agradar a esposa. Mas a empolgação que exalava de sua pele com mais vigor que o suor não se represaria por muito tempo.

— E lá estava o tigre, então. Encurralado! Não havia ninguém pelas costas do grande Filatim-Senur, e somente o tigre pela frente. O tigre, a seu turno, tinha um muro alto atrás de si! A vitória ainda não era certa, já que podia ser a última e melhor oportunidade para o tigre avançar sobre seu perseguidor. E Filatim também não se sentia seguro diante do animal assustador, que se apresentava com as mandíbulas escorrendo sangue. Sangue de gente que sofreu por uma vida inteira, e que não teve sorte nem à hora da morte. Sangue de bêbados desiludidos, estivadores famintos, senhoras indefesas, e… principalmente… de crianças!

— Já basta! — irou-se Pétrifa. — Venha, vou levá-lo para que durmas dentro de casa — virou-se para mim.
— Não, por favor! — implorei. — Deixe-me saber do resto da história!
— Não tão jovem! — retrucou a severa senhora, também apanhando a filhinha de seu marido (não que eu entendesse sobre concubinato quando criança, mas um dia eu entenderia aquela situação sem que me precisassem explicar).
— O que negas ao menino é a verdade — disse um dos mesmos rapazes de antes. — E dela não se consegue fugir para sempre.
— Boa noite! — encerrou Pétrifa.

A dedicada esposa não tinha ideia do quanto me arruinara a noite. Não houve copo d'água ou carneirinho que me pudesse conter a ansiedade de saber o final daquela história, que julgava-se verídica, ainda que fantástica.

Era a história de Filatim, um tecelão emigrante que se instalara nos arredores de Vivrana uns três séculos antes. Quando do infortúnio de um tigre escapar da jaula de uma trupe circense, devastando as tendas dos miseráveis, Filatim fora o único realmente corajoso a erguer-se contra ele. Depois de dias de uma perseguição árdua, cheia de fatos fantásticos — certamente acrescidos à história enquanto passava de boca em boca — o tigre finalmente fora vencido. Atribuiu-se a Filatim o ato heroico de matar o tigre com um certeiro golpe de espada — embora não se explique se era comum que tecelões andassem com espada àquela época.

A exaustão levaria Filatim a morrer logo após sua grande proeza, no meio de um incêndio devastador provocado pelo próprio tigre, de alguma forma pouco explicada. Daquele drama arrebatador, capaz de levar às lágrimas qualquer um que se despojasse do mínimo ceticismo, nasceria a vizinhança da Baixa doTigre, um lugar cuja única função parecia ser a de dar permanência a gente miserável.

Dentro de suas origens diferentes, os moradores daqueles becos imundos e casebres apodrecidos eram todos iguais. Quem não era migrante miserável de qualquer outro lugar do império ou fora dele, era, certamente, um descendente de alguém assim.

E esse era o meu caso.
E o de vovô.

Se eu era um completo ignorante sobre mim mesmo? Certamente. Mas sabia que vínhamos de um lugar chamado Áquata do Sul, ou simplesmente, Áquata — em razão da cordilheira homônima à província. Detalhes comezinhos que pouca importância tinham na mente dum menino de seis anos.
A balsa, que nos ajudara a atravessar o rio Escudas, retornando à margem do outro lado; as frutas podres pelo caminho; os peregrinos que saiam de todos os cantos e iam para tantos outros destinos, como manadas obedientes; o canto irritante dos ventos, que se convertia em sonata nobre quando éramos acometidos de calor descomunal… tudo isso fazia parte de um resumo do que eu presenciara durante aqueles meses e meses de árdua jornada.


1 O vocábulo “senur” corresponde à palavra “senhor” no idioma vívano arcaico, e é usado por força da tradição. Na prática, o termo “Senur”, precedido do nome, tem como função o desígnio de profundo respeito ao homem em questão. Forma feminina: Ginur.


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